Dic nobis Maria,
Quid vidisti in via?
Sepulcrum christi viventis,
Et gloriam vidi resurgentis
Hoje é Páscoa. Hoje vimos, com Maria Madalena, o sepulcro vazio de Cristo e a glória de sua Ressurreição. Acabamos de celebrar os mistérios divinos de nossa redenção, por isso trago um texto em que Santo Agostinho nos explica sobre como a nossa redenção do julgo do demônio nos foi conseguida por Cristo, mas que precisamos consentir viver em Cristo para termos o prêmio eterno.
É porque o Verbo de Deus, o Filho único de Deus, que sempre teve e sempre terá o demônio submetido às suas leis, tendo se revestido de nossa humanidade, submeteu igualmente o demônio ao homem. Para isso, nada lhe exigiu com violência. Mas venceu-o pela lei da justiça. Posto que o demônio, tendo enganado a mulher e feito cair o homem por meio dela — certamente animado pelo desejo perverso de causar dano, entretanto com todo direito — pretendia submeter à lei da morte todos os descendentes do primeiro homem, a título de pecadores.
Em consequência, esse poder não deveria perdurar senão até o dia em que o demônio poria o Justo à morte, Àquele em quem nada podia encontrar digno de morte. E ele, não somente foi condenado à morte, sem crime algum, como também nasceu sem concupiscência alguma, pela qual o demônio subjugava a todos os seus cativos, como frutos de sua árvore. Isso sem dúvida levado por um desejo muito perverso. Não obstante, sem lhe ter faltado certo direito de propriedade. Por conseguinte, é com toda justiça que o demônio está constrangido a libertar aqueles que crêem naquele a quem submeteu à morte injustamente.
Desse modo, se os homens morrem de morte temporal, que essa morte seja para liquidar sua dívida; e se vivem da vida eterna, que seja para viver naquele que pagou por eles uma dívida que ele próprio não tinha.
Para aqueles, porém, a quem o demônio tiver persuadido de perseverar na infidelidade, com direito ele os terá como companheiros na danação eterna.
Assim, pois, aconteceu que o homem não foi arrancado por violência ao demônio, tal como este não havia se apropriado por violência do homem, mas por persuasão. Dessa maneira, foi submetido o homem que com direito havia sido humilhado, a ponto de se tornar escravo daquele a quem dera o consentimento para o mal. Com direito, também, foi libertado por Aquele a quem dera o consentimento para o bem. Isso porque o homem fora menos culpado consentindo ao mal do que o demônio a persuadir a fazê-lo.
Retirado de: O Livre-Arbítrio, Capítulo 10, 31.