“Todos os egoístas são medrosos”

No trecho abaixo de uma belíssima carta ao legado pontifício Pedro d’Estaing, Santa Catarina de Sena descreve de forma a falta de coragem conduz à imperfeição.

Quando alguém sente medo por interesses pessoais, nenhuma ação sua é perfeita. Seja qual for sua posição social, sua atividade falha nas pequenas e nas grandes coisas. Nada atinge a perfeição naquilo que faz. Como é nocivo o temor interesseiro! Ele inutiliza o desejo santo, cega a alma, impedindo-a de conhecer a verdade. Realmente, do medo interesseiro procede a cegueira egoísta. Todos os egoístas são medrosos. Por quê? Porque depositaram sua afeição e esperança numa realidade débil, sem firmeza, instável, passageira como o vento. […]

É preciso evitar o medo interesseiro, fixando o olhar do pensamento no Cordeiro sem mancha, norma e verdade que devemos seguir. Ele só procurou a glória do Pai e a nossa salvação. Cristo não temia os judeus com sua maldade, nem os demônios, nem o descrédito, as caçoadas, as palavras ofensivas. No final, não teve medo da humilhante morte na cruz. Sejamos discípulos nessa doce e suave escola. Com semelhante luz, despojar-vos-eis do amor próprio e vos revestireis do amor divino; procurareis a Deus por causa de sua infinita bondade e porque ele merece que o procuremos e amemos; possuireis um amor reto por vós mesmo e pela virtude; odiareis o vício por amor a Deus; e com tal amor amareis o próximo.

tirado de: Cartas Completas de Santa Catarina de Sena, Carta 11, p. 38, Editora Paulus.

Nosso Senhor, quando manda amar, revela que devemos amar a nós mesmos – “Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” (Mt 22, 39) -, sendo, portanto, o egoísmo um pecado contra o amor de si mesmo (pelo excesso), já que o sujeito antepõe o próprio bem ao bem de Deus e ao bem dos outros (Del Greco, T. T., Teologia Moral: Compêndio da Moral Católica para o Clero em geral e Leigos, Edições Paulinas, p. 141, 1959). A definição de Del Greco encontra voz no texto de Catarina quando ela explica que Nosso Senhor só procurou o bem de Deus (“glória do Pai”) e do próximo (“nossa salvação”).

O que Catarina quer mostrar é que na raiz desta desordem jaz a falta de virilidade, o medo. O medo de desgostar os outros ou de perder o que se tem (fama, posses etc) faz com que a alma se afaste da perfeição e queira bens para si mesma que não lhe são devidos. Santa Catarina também nos mostra o remédio, que é imitar a Cristo, seguir sua coragem e desprendimento.

Ó Senhor Jesus, dá-me coragem para glorificar teu nome e te servir no próximo! Que o que eu tenho e sou no mundo seja como nada para mim, senão permissões da tua misericórdia! Ajudai-me! Jesus Doce! Jesus Amor!

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“Ao pagar amor com amor, a alma dessedenta Cristo.”

O epistolário de Santa Catarina de Sena, Doutora da Igreja, encerra belíssimas passagens que nos garantem preciosas meditações. Neste trecho, retirado de uma carta ao prior do Mosteiro de Monte Oliveto, a quem chama carinhosa e respeitosamente de pai, Catarina expõe de que forma a palavra que indica a sede de Cristo na Cruz expressa seu desejo para que O amemos e sirvamos ao próximo.

Com fome e sede da nossa salvação, Jesus clamava sobre o madeiro da cruz: sítio (tenho sede), como a dizer: “Tenho sede e desejo da vossa salvação, em medida bem maior do que o sofrimento possa mostrar”. De fato, a sede do seu desejo era infinita, ao passo que o sofrimento, finito. Embora sentisse sede fisicamente, Jesus revela seu desejo de salvação da humanidade. Ó Jesus amável! Ao mesmo tempo dizes estar com sede e pedes que te seja dado de beber. Quando pedes à nossa alma que te dê de beber? Ao demonstrares, meu Senhor, tua afeição e teu amor.

Caríssimo pai! Compreendeis que o amor inefável (de Jesus) manifesta-se no sangue. Por amor, ele nos deu seu sangue. E com amor nos pede de beber. Em outras palavras: aquele que ama deseja ser amado e servido. É muito justo que seja amado, aquele que ama. Ao pagar amor com amor, a alma dessedenta Cristo. No entanto a criatura não pode ser diretamente útil a Deus, mas somente através do próximo. Eis o motivo pelo qual a alma, com tanto empenho, se põe a servir o próximo naquilo que percebe ser do agrado divino e nisso persevera.

Retirado de: Cartas Completas de Santa Catarina de Sena, Carta 8, pp. 31-32, Editora Paulus.

As frases finais, particularmente, nos mostram que quando amamos à Jesus, sendo Ele Deus, nada lhe damos que ele já não tenha! Ele é todo Amor! É Perfeitíssimo! Nada lhe acrescentamos (“No entanto a criatura não pode ser diretamente útil a Deus“). Não nos ama porque Lhe falte algo, mas porque o tem em plenitude!

Desse modo, tudo que lhe devemos (“é justo que seja amado aquele que ama”) retribuímos na pessoa do próximo. E, com precisão, Santa Catarina explica que este serviço não se dá simplesmente atendendo a vontade do próximo, mas servindo-o em tudo que seja da Vontade de Deus Nosso Senhor (“naquilo que percebe ser do agrado divino”).

Ó Senhor Jesus, que eu possa atender tua sede de amor, te amando mais e te servindo mais em meus irmãos! Não quero te dar fel e vinagre, mas quero te dar uma vontade dócil e uma inteligência reta! Ajudai-me! Jesus Doce! Jesus Amor!